http://jn.sapo.pt/2005/08/11/pais/pa...as_chamas.html
Paraplégico salvou crianças das chamas
Carlos Frazão retirou dois meninos de uma zona que estava a ser devorada pelo fogo, em Leiria Teve de receber tratamento hospitalar
Mecânico de automóveis, de Curvachia, salvou as crianças com a ajuda de uma moto-quatro.
Helena Simão
Um homem, paraplégico, salvou do fogo e da morte quase certa duas crianças, com cerca de 4 e 10 anos, com a ajuda de uma moto-quatro, em Curvachia, concelho de Leiria. Devido ao fumo que inalou e a algumas queimaduras que sofreu, Carlos Frazão, 41 anos, teve de receber assistência hospitalar. Teve ontem alta.
"Mandei-me de cabeça sem pensar nas consequências". Uma semana depois daqueles momentos angustiantes, a imagem de pânico dos dois meninos não lhe sai da cabeça. Tenta esquecer o que aconteceu para "recuperar depressa", mas as marcas são demasiados evidentes. Respira-se a terra queimada por aquelas bandas. Na passada quinta-feira, o fogo consumiu tudo o que tinha pela frente. Salvaram-se as casas e as vidas.
"Fui trabalhar de manhã, mas depois de almoço fiquei por casa. O incêndio avançava para a aldeia", conta o mecânico de automóveis. "Agarrei na moto-quatro e fui distribuir água pelos bombeiros. Eles foram incansáveis...", relata. Numa rua de terra batida, rodeada por chamas "da altura dos pinheiros", Carlos ouviu gritos. "Percebi de onde vinham e não hesitei", recorda, enquanto aponta para o local (rua do Ultramar), onde arriscou a própria vida. Uma imensa nuvem de fumo envolvia a zona, pelo que teve de levantar a camisola para se proteger.
A meio da rua, viu "um miúdo, que caiu, talvez porque já não conseguisse respirar", e agarrou-o "Ele andava a correr em direcção ao fogo. Estava completamente desorientado". "O mais velho, provavelmente irmão, veio atrás, agarrado ao mais pequeno e à moto-quatro", adianta. Carlos inverteu o sentido de marcha e regressou para uma zona onde "estavam bombeiros", entregando as crianças.
Voltou a casa porque ficou "intoxicado". À noite, os vómitos e convulsões obrigaram-no a deslocar-se ao Hospital de Leiria, onde recebeu tratamento durante a noite. No dia seguinte, já em casa, voltou a sentir-se mal. "Fiquei cheio de febre e tiveram de me levar outra vez", diz. De regresso a casa, mostra-se "aliviado por tudo ter acabado bem", mas triste por não saber nada dos meninos "Gostava de saber quem são e como estão, era só isso".
"Herói?" Nem ousa dizer essa palavra. Humilde, mas com olhar destemido, senta-se, outra vez, na moto-quatro que, naquele dia, "tinha o plástico a derreter". O enteado Jorge André, 14 anos, ajuda-o. O brilho intenso no olhar é comovente. "Sinto muito orgulho. Todos os dias. Por todas as lutas que ele trava", conta, adiantando que, juntos, praticam karting, mas "quem ganha" é o padrasto.




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