Ricardo Quaresma saiu de Milão desiludido com José Mourinho. Não o diz abertamente, mas é isso que transparece nas entrelinhas das suas respostas. Como quando reconhece que escolheu o Inter porque “tinha o desejo de ser treinado pelo melhor do mundo... para muitos” e, logo a seguir, acrescenta, que a coisa de que mais se arrepende na vida é ter ido para o clube italiano.
“No Inter de Milão perdi – ou tiraram-me – a alegria, a felicidade e confiança que tenho em jogar futebol. E, neste momento, o Besiktas deu-me tudo que eu precisava para jogar”, chega mesmo a afirmar. Em Portugal a recupera de uma lesão, Quaresma garante estar felicíssimo com a aventura que está a viver em Istambul, onde é idolatrado pelos adeptos. Na entrevista ao Público, o futebolista português passa em revista os altos e baixos de uma carreira.
Está em Portugal a recuperar de uma lesão. Vai estar pronto para defrontar o FC Porto na Liga Europa, no próximo dia 21, na Turquia?
Infelizmente não. O primeiro exame que fiz dava três semanas de paragem e não esclarecia muito bem que tipo de lesão era. No segundo, que já efectuei na clínica do Gaspar [fisioterapeuta da selecção], confirmou-se que era uma rotura e a paragem de quatro a cinco semanas. Mas para o segundo jogo com o FC Porto já espero estar em condições.
Já pensou no que irá sentir quando regressar ao Estádio do Dragão, em Novembro?
Vai ser estranho para mim. Como profissional, tenho de passar por cima disso e fazer o meu melhor. Sentimentos claro que vou sempre ter. Foram quatro anos de felicidade e a ganhar muita coisa naquele clube. Houve bons e maus momentos, mas os bons é que ficam sempre na memória. Vou ter sempre um carinho pelo FC Porto. Agora, é um jogo que vai ser importante para a minha actual equipa e é minha obrigação ajudá-la.
É verdade que o Quaresma renasceu desde que foi jogar para a Turquia?
Isso sem dúvida. Porque no Inter de Milão perdi – ou tiraram-me – a alegria, a felicidade e confiança que tenho em jogar futebol. E, neste momento, o Besiktas deu-me tudo que eu precisava para jogar.
Porque diz que, no Inter, lhe tiraram a alegria de jogar futebol?
Durante duas épocas passaram-se muitas coisas. Comigo e com várias pessoas do clube. Deixei de ser opção, deixaram-me de me convocar, puseram-me um pouco à parte da equipa.
Mas o treinador era José Mourinho... Acha que ele foi injusto consigo?
Não sei! Houve muita coisa estranha que ainda hoje não percebi. Agora, é verdade que eu me sentia um jogador à parte. Se no Inter acordava a chorar para ir para os treinos, hoje acordo a sorrir para ir treinar.
Fez 27 anos em Setembro e, para quem acompanha a sua carreira, fica a ideia de que o seu talento não tem sido aproveitado em boa parte. Por culpa própria, injustiças ou um misto das duas coisas?
Um misto. Não vou estar aqui também só a culpar as pessoas, até porque temos de saber lidar com algumas coisas. No Barcelona era jovem de mais e no Inter foi o que se sabe.
Mas não tem gerido mal algumas opções? Saiu do Sporting com 20 anos e escolheu o Barcelona, quando o seu empresário defendia que o Corunha seria melhor opção para progredir na carreira. A verdade é que não se afirmou e chegou a ter problemas com Frank Rijkaard...
A vida é um risco. E todos nós temos sonhos que queremos perseguir. E se, nesse sonho, surge o Barcelona e o Corunha, quem não escolheria o Barcelona?
O Barça pagou 6 milhões e a cedência de Rochemback (avaliado noutro tanto), no mesmo ano em que o Manchester United pagou 15 milhões para ter o seu amigo Cristiano Ronaldo... Vocês eram duas promessas de valor idêntico, mas os percursos e a progressão na carreira têm sido bem distintos...
Sim, eu percebo, mas há sortes diferentes. O Manchester é um clube que tem paciência e que sabe trabalhar com os jovens e eu entrei no Barcelona numa fase em que as coisas não estavam a correr bem ao clube espanhol. Depois, foi tudo a jogar contra mim, a começar pelo dinheiro que tinham pago. Era muito jovem e não estava preparado para lidar com a situação.
Hoje seria diferente?
Claro que sim, muito até. Com 27 anos, uma pessoa está mais forte e preparada.
Depois da Catalunha, o Porto funcionou como porto de abrigo? Esteve quatro épocas no Dragão, fez 112 jogos e marcou 32 golos...
Sinceramente, a única coisa que preciso, seja onde for, é sentir-me útil a uma equipa.
Mas, no início, também teve problemas com Co Adriaanse, que o chegou a deixar de fora. Na altura, até se disse que o Quaresma só voltou a jogar porque tinha passado a respeitar a obrigação de colaborar defensivamente...
Isso não tem nada a ver. A verdade é que chegou um momento em que as coisas não estavam a correr bem a Adriaanse. E, se formos a ver, eu passei para o “banco”, tal como o Pepe passou e o Paulo Assunção. Jogadores que, curiosamente, acabaram por vir a dar muito ao clube e à equipa do Adriaanse. A idade e a vida ensinam-nos muita coisa. E, nessa altura, eu já tinha aprendido o suficiente para lidar com a questão.
O essencial é que eu precisava de me sentir útil. Porque não é um treinador que nos vai dar o talento. Ou temos ou não temos. O mais importante é um treinador saber lidar com os jogadores e eu acho que aqueles que encontrei nos dois últimos anos não souberam lidar comigo.
Jesualdo Ferreira, que já treinou com jogadores como Zidane, chegou a confidenciar-nos que nunca tinha trabalhado nos treinos com ninguém tão dotado como o Quaresma. Mas acrescentava a dificuldade em retirar-lhe o mesmo rendimento nos jogos. Mesmo assim, dizia que você tinha uma participação em mais de 50 por cento nos golos portistas... Pode explicar isto?
Nunca dei azo a que nenhum treinador me criticasse em termos de aplicação nos treinos. Sempre gostei muito de treino. Gosto de experimentar coisas que possa depois por em
prática nos jogos.
Jesualdo disse-me que nunca viu ninguém tão forte no treino a um ou dois toques nem a controlar a bola nas situações mais difíceis...
Ele também teve essa conversa comigo. Mas, nos treinos há mais espaço e menos pressão.
Mas não é também uma questão de critério, de querer jogar um pouco para as bancadas nos jogos?
Nos jogos é tudo diferente. O ritmo, a intensidade... Por vezes não há opções de passe e é obrigatório improvisar. E, quando assim é, o risco de cometer erros é maior.
Não concorda então quando se diz que é mais disciplinado técnica e tacticamente nos treinos do que nos jogos?
Sinceramente, não. Jogo como treino. Agora, pelas razões que já expliquei, há certos momentos em que arrisco mais nos jogos do que nos treinos.
Não se arrependeu de ter forçado a saída para o Inter de Milão, quando o seu empresário estava inclinado em transferi-lo para um Chelsea que acabara de contratar Scolari?
Na altura, não. Porque tinha o desejo de ser treinador pelo melhor do mundo... para muitos. Mas, se me perguntar hoje em dia... a coisa de que mais me arrependi na vida foi ter ido para o Inter.
Porque nunca caiu nas boas graças de José Mourinho?
Não lhe sei responder a isso. As pessoas só contam o que lhes convém, mas eu vi muita coisa naquele clube e achei muita coisa estranha em relação a mim.
O que aconteceu realmente?
Muita coisa. Quando lá cheguei, percebi que só tinha sido contratado porque o Mourinho me queria. Mais ninguém me queria. E, de repente deixei de jogar. Sei que houve jogos que não me correram bem. Não posso dizer o contrário. Mas um treinador que me vai buscar, que faz força para me meter no clube e depois não me ajuda na fase em que eu mais precisava de ajuda...
A imprensa italiana não demorou a questionar os 20 milhões, mais a cedência de Pelé, pagos ao FC Porto. Chegaram a atribuir-lhe o “Il Bidone d’Oro”, prémio atribuído ao pior negócio do calcio... Foi duro lidar com isso?
Isso até não, porque, sinceramente, nunca liguei muito ao que se diz e escreve nas televisões e nos jornais. A pressão da imprensa a mim nunca me assustou. Porque, se me assustasse, não sei como conseguiria render na Turquia, onde há uma data de jornais desportivos, uma imprensa que nos segue para todo o lado e adeptos que gostam de futebol como eu nunca vi. Acho que, no futebol, não há nenhum lugar com tanta pressão como na Turquia. Isso a mim nunca me assustou, ao contrário do que quis passar o mister Mourinho, quando veio para a televisão dizer que eu me assustava com os adeptos do Inter. É mentira. Público nenhum me assustou. Agora, é verdade que passei em Itália uma fase complicada na minha vida. E, se calhar, era aí que eu precisava de ajuda. Não a tive.
Acabou por ser emprestado ao Chelsea, de onde não demorou a sair Scolari... Ou seja, mais uma opção que não lhe correu bem...
[risos] Acho que tive dois anos em que mais valia ter fechado os olhos e só acordar agora. Tudo o que eu fazia corria mal. Até na saída do Scolari tive azar. Um dia antes do fecho das inscrições, o Mourinho ligou para o meu empresário a dizer que já não contava comigo e que eu ia para o Tottenham. Eu disse que não ia. Respeito muito o Tottenham, é um grande clube e agradeço o interesse, mas respondi que para ali não ia. E, nisto, surgiu o Chelsea e o Scolari a dizerem que contavam comigo. Fui, fiz um jogo e, no dia a seguir, o Scolari foi despedido... A partir dai, acabou o Quaresma outra vez. Foram dois anos terríveis. Mas cresci ainda mais como homem e, por tudo o que já passei, hoje em dia nada no futebol me assusta.
Regressou ao Inter, mas continuou a contribuir pouco para os títulos ganhos... Prosseguiu o calvário?
Acho que até piorou. No primeiro ano ainda tive algumas oportunidades, mas no segundo praticamente não joguei. É verdade – como eu não me canso de reconhecer – que eu não estava numa boa forma. Não podemos inventar desculpa e vi a gravação de jogos em que não acreditava que era eu que estava a jogar. Regressar foi mesmo o pior erro que eu cometi na minha vida. Porque se no primeiro ano já tinha visto que não era opção, não tinha de lá voltar outra vez. Mas, lá está, queria mostrar o meu valor. E várias pessoas disseram-me para eu voltar porque as coisas iam ser diferentes. E, afinal, ainda foi pior.
No último verão, o Besiktas acabou por pagar sete milhões pela sua contratação e o Quaresma foi recebido como um herói em Istambul por milhares de adeptos que não tinham esquecido uma exibição sua na Turquia, em 2007, ao serviço do FC Porto... Isso impressionou-o?
Impressionou. Desde aí, senti que tinha de dar tudo o que tenho para dar. Sinceramente, não estava à espera daquilo. Estavam cinco mil pessoas à minha espera no aeroporto e depois estiveram 25 mil na apresentação no estádio. Isso levanta o moral de qualquer jogador. Desde esse dia, meti na cabeça que tenho de voltar a ser o que sou. E acho que estou a cumprir com aquilo que lhe disse na minha primeira conferência de imprensa: dar tudo o que tenho para dar pelo Besiktas. Eles merecem por tudo o que têm feito por mim.
No estádio, os adeptos cantam o seu nome mesmo quando o resultado é adverso. E você tem correspondido com boas exibições, golos e assistências. Isso significa que o Quaresma só rende quando é acarinhado?
[risos] Não, significa que não preciso de muito para jogar futebol quando as pessoas me dão valor e olham para mim como algo útil. Preciso da confiança das pessoas. Não é uma questão de carinho. Não é preciso estarem a dizer-me que sou o melhor do mundo ou que tenho talento. A questão é eu sentir-me útil, que precisam de mim e faço parte do grupo à disposição do treinador. Porque, saber que não se é opção independentemente de se treinar bem ou mal...
Como se está a dar com o alemão Bernd Schuster? É verdade que ele, ao contrário de outros técnicos, lhe pede para fazer “trivelas”?
[risos] O Schuster sabe lidar comigo, Dá-me muita confiança e a única coisa que me pede é que eu jogue aquilo que sei. Quando há um lateral adversário que ataca muito, pede-me para defender. O que é normal em qualquer treinador. Faço isso sem problemas, porque a táctica não é difícil. É até a coisa mais fácil do mundo. Eu não tenho problemas com a táctica, ao contrário do que muita gente diz.
Então porque há muita gente a dizê-lo?
Porque quando se ganha uma fama é difícil perdê-la. E eu sempre tive a fama de ser individualista. Já o diziam no FC Porto, esquecendo-se que ninguém teve mais assistências para golo do que eu. Ora, alguma coisa não bate certo quando eu consigo isso e mesmo assim me acusam de individualista. A verdade é que mesmo os que me elogiam metem sempre pelo meio uma crítica. Ou é porque não defendo, ou porque sou individualista ou mau tacticamente. Há sempre um defeito para mim. E isso eu nunca percebi.
O Besiktas fez um forte investimento e contratou também, por exemplo, o espanhol Guti. A verdade é que as sondagens dizem que o Quaresma é claramente o desportista mais popular na Turquia, apesar de não jogar no clube com mais adeptos...
Vejo isso com o maior orgulho. Quando saio de casa e vou passear com o meu irmão ou com a minha família sinto a admiração que as pessoas sentem por mim, sejam elas adeptas do Besiktas, do Galatasaray ou do Fernerbahçe. Toda a gente me pede autógrafos, fotos... É bonito para um jogador.
"Guti, para mim, é um craque"
E, no balneário, como é a tua relação com os colegas?
Muito bem. O Guti supreendeu-me muita pela positiva. Já tanto êxito e ganhou tanta coisa no Real Madrid que poderia chegar e pensar que era mais importante do que os outros. Mas não, é uma pessoa humilde e que sabe estar no seu canto. Faz um grande ambiente no balneário. Além disso, para mim é um craque.
O Besiktas divide o quatro lugar da liga turca com mais três adversários e está a três pontos da liderança? O título é um objectivo?
Claro, todos nós queremos ser campeões. Fui para lá com esse objectivo, até porque ganhei sempre alguma coisa em todos os clubes que representei, com excepção do Barcelona. Até no Chelsea ganhei uma taça inglesa. No Besiktas quero ajudar a ganhar o campeonato e chegar o mais longe possível na Liga Europa.
Em oito jogos na liga turca, marcou um golo e fez quatro assistências, enquanto na Liga Europa segue com três golos. Quais são os seus objectivos pessoais?
Fazer cada vez mais assistências. E, neste momento, acho que devo começar a marcar mais golos. Sempre me preocupei mais em assistir, mas como o futebol anda, um extremo tem de fazer mais golos.
Como é o futebol turco? É verdade que há dinheiro para dar e vender?
Os clubes estão bem, são fortes em termos financeiros. Há qualidade e o campeonato é muito competitivo. Joga-se muito com o coração. Aos 95 minutos vemos jogadores a correrem de lado a lado. Um jogador tecnicista tem sempre dois e três adversários em cima. Nunca se sabe quem vai ganhar.
Há quem diga que o futebol turco só ainda não saltou para a primeira linha do futebol europeu porque os regulamentos impedem as equipas de ter mais de seis reforços estrangeiros...
Acredito que sim. O campeonato turco não é aquilo que se pensa na Europa ocidental. A mim está-me a surpreender muito e cada vez estou a gostar mais.
Tem acompanhado a liga portuguesa? Quem está mais forte?
Neste momento, é o FC Porto. Acho que o Braga caiu muito e o Benfica não está como na época passada. Os jogadores são quase os mesmos, mas muitos vieram das selecções mais tarde e outros sentem dificuldade em ganhar ritmo. Mas ainda falta muito campeonato...
E o “seu” Sporting?
[risos] Está a passar uma fase muito difícil e, sinceramente, espero que se reencontre.
Acha, então, que o FC Porto vai ser campeão?
Nesta fase, é isso que acho ao olhar para os quatro que lutam pelo título – e já estou a incluir o Braga, que tem feito um grande trabalho e tem um grande treinador.
Quando resolver regressar ao futebol português, qual dos três é que vai escolher?
Dos três não, dos dois [risos]. Não, não sei. Ainda não estou a pensar voltar e, quando isso acontecer, nem sei se algum deles me vai querer. Tenho 27 anos e mais dois anos de contrato. Depois, só Deus sabe o meu futuro.