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pmct
Este ano, os produtores agrícolas portugueses estão a aumentar significativamente a área de cultivo de cereais. Em vários casos, a sementeira que por estes dias se faz vai duplicar ou mesmo triplicar. Porquê? Porque dá dinheiro. O mercado está a vingar-se do dirigismo da PAC.
A Política Agrícola Comum criou uma economia planificada na agricultura europeia, que há 20 anos chocou um Portugal agrícola e atrasado. A Europa gere as produções da comunidade, contendo e distribuindo a oferta de modo a suavizar assimetrias de preços e de quantidades oferecidas. O que implica ter uma agricultura conduzida por subsídios – incluindo a subversão de muitos agricultores receberem subsídios para produzir nada.
Este ano é ao contrário. O mercado sublevou-se face a Bruxelas, os preços tornaram-se melhor estímulo que os subsídios e os agricultores tomaram a decisão racional de escolher o melhor negócio. E Alentejo e Ribatejo, outrora o “celeiro da Europa” (chegou a ter mais de cem mil hectares só de girassol, dos quais restam 15 mil), está a ser coberto de sementes.
A razão essencial é o aumento brutal dos preços destas matérias-primas. Em todo o Mundo. E em Portugal. Em benefício do produtor e seus intermediários. Em prejuízo do consumidor final. Não é maniqueísmo. É a lei da oferta e da procura, pura e simples.
Os biocombustíveis são parte da razão para essa explosão. Processa-se girassol, milho, trigo para gerar energia e assim desloca-se produção, tirando da boca para dar aos motores. Nesta tese, que é muito contestada (os produtores argumentam com a “gota no oceano” que os biocombustíveis representam no consumo de cereais), o Planeta está perante um paradoxo de crescimento acelerado: há cada vez mais cereais e esgotamento dos solos, mas a fome persiste.
É a pressão da procura planetária, a par de um mau ano agrícola nos Estados Unidos, que contribui decisivamente para o desequilíbrio que se manifesta nos preços. Nos cereais, nas massas, na carne, no leite – no coração da roda dos alimentos.
A população mundial está a crescer aceleradamente. A China e a Índia são um “baby boom” de classe média, que cresce todos os dias, consumindo energia e comprando alimentos. A Europa passa de planificada a panificada, ultrapassada pelo lucro e pela oportunidade de negócio. Pagamos o papo-seco 30% mais caro que em Janeiro. E os padeiros não estão a enriquecer.
São claras as explicações que publicamos hoje de Jaime Silva. O governante, a que Henrique Granadeiro (que além de presidente da PT é agricultor e que por acaso também está a duplicar área cerealífera) uma vez deu nota mínima enquanto ministro da Agricultura e nota máxima como ministro dos Subsídios, assume ele
próprio o primado do lucro como um benefício que os produtores portugueses devem aproveitar. Mas é o mesmo ministro que, lúcido, diz que esta nova realidade vai ter repercussões na inflação em 2008; e que a Europa deve avançar para reservas estratégicas. Já ouviu falar deste tipo de preocupações? Já. Mas era acerca do petróleo...
Economia pura e dura: a procura dispara, os preços sobem, os produtores apropriam-se da margem paga pelos consumidores, a oferta reage e aumenta. Mas o ajustamento é lento e depende de factores incontroláveis, que ditam boas ou más colheitas.
É hoje dado como certo que a alimentação e a agricultura serão um dos grandes negócios da
próxima década. No Mundo. Na Europa. Em Portugal.
Quem diria?
http://www.jornaldenegocios.pt/defau...ntentId=305823