A Tradição do Carnaval
O Carnaval
Foi o avizinhar de mais um Entrudo que suscitou em mim o interesse por obter informações sobre os folias desta época no primeiro quartel deste século e me levou, uma vez mais, a por-me em campo para obter informações.
Festejava-se o Carnaval, ontem, como hoje, sem se estar preocupado em obter explicações para ele. Estar relacionado com as Saturnais Romanas, ser vestígio de primitivas festas religiosas que se prendiam com o início do ano para obter as tão necessárias graças dos deuses ou com o início da Primavera no renascer da Natureza ou, ainda, buscar explicação para a utilização das máscaras (para se obter a reconciliação com os maus espíritos, antropomorfizando-os ?) eram pormenores de somenos importância para o comum dos mortais.
Era época de animação. Havia sim que aproveitar mais uma oportunidade de divertimento, já que, dos Magustos até segunda-Feira de "Festa", era a hibernação , um interregno forçado a acompanhar o ciclo da Natureza.
Dançavam desde Domingo Gordo até Terça-feira, na rua quando o tempo o permitia, ao som do realejo, com um pouco mais de sorte ao som da concertina ou simplesmente cantando. E uma vez mais nos foram referidas as danças: Vara das Fitas ou Trança e, particularmente, o Encanto cujas letras e formas de dançar já foram referidas a propósito das tradições do S. João.
Vestiam-se de "entrudo", os homens vestidas de mulher e as mulheres vestidas de homem, de preferência com fatos velhos e o rosto velado para se tornar difícil a identificação dos mascarados. Também se enrolavam em lençóis brancos, representando a figura da Boa Hora. As raparigas, quando possível, vestiam-se de varinas alegrando as ruas com as cores mais garridas destes trajes os quais lhes realçavam também a sua beleza
Os entrudos andavam aos grupos pelas ruas e visitavam as pessoas amigas que, por entre as suas momices, tudo faziam para desvendar as personagens.
Algum tempo antes da Terça-feira de Carnaval, não em data definida, começavam as partidas e os enganos, que culminavam nos últimos dias.
Era o "rabo", que podia ser de coelho, colocado com toda a cautela e que merecia o comentário: "Largo-o que não é teu!"
Eram os recados de impossível resolução mandados fazer "aos mais simples", crianças e não só: "ir aos gambozinos com um saco", por exemplo. Eram as mentiras que, metidas tão a propósito, passavam bem por verdadeiras. Arreliavam-se os bêbedos roubando-lhes o chapéu, por meio de uma mola da roupa suspensa por um fio muito fino; ou atiravam-se coisa para dentro das casas, pela janela ou porta entreabertas. Tudo (muito) era permitido, pois já reinava a máxima:" É Carnaval, ninguém leva a mal". Disseram-me igualmente que este tempo do Carnaval não passava despercebido nas Fábricas, onde sempre que se podia, entravam as partidas.
Dos testemunhos recolhidos ressalta principalmente a ideia de grande animação, já que no fundamental os folguedos se mantêm recorrendo hoje, no entanto, os folgazões a disfarces mais sofisticados.
Enfarinhavam-se uns aos outros, mas as raparigas eram alvo muito desejado. Por isso os padeiros vendiam mais quilos de farinha nessas alturas. À farinha juntava-se, muitas vezes, a água transportada em bexigas ou tripas. Apesar das senhoras porem a tónica que, no que respeita a divertimentos, tudo era mais são, os cavalheiros disseram-me que aproveitavam a brincadeira da farinha para acariciar a cara das cachopas.
Segundo parece descambava-se bastante na agressividade, porque o vinho não se dispensava e, por isso, as mães evitavam que as filhas saíssem à rua, estando absolutamente proibidas de o fazer à noite, na
própria Terça-feira.
Muitas vezes por volta da hora das Avé-Marias tocava o sino a recolher, não se evitando mesmo assim as brigas que faziam com que os homens fossem parar ao Posto, que era ali na Esquina do Terroeiro e era comandado pelo Cabo Manuel.
No que respeita à gastronomia referiram que havia muita gente que nessa altura não perdoava o bucho (morcela de carne) e o caldudo.
Trabalho realizado a partir de testemunhos de: António Saraiva Costa, José Ribeiro e Natália Guilherme
E pasmem, Amigos, o Jornal do Fundão no seu nº de 28.2.54-"Página de Carnaval" também brindava o Tortosendo.