Há uns meses, fiquei a precisar de um carro para as minha voltas pela cidade de Lisboa. Como não iria usar muito o carro, o objectivo era não gastar uma fortuna. Obviamente, sabia que também não poderia exigir muito.
Como seria carro para fazer menos de 1000 km mensais, não interessava o combustível. Nem pus a hipótese de ter um carro a gasóleo, pois o orçamento só dava para xaços e isso também não queria.
Não queria um carro acima do segmento C, pois ainda sou um gajo jovem, não preciso do espaço interior e, como é só para andar em cidade, é importante que o carro seja relativamente fácil de estacionar.
Não me interessavam carros com motores 1.2 e afins. Basicamente, teria de se mexer razoavelmente, sem implicar consumos muito altos.
O equipamento tinha poucos requisitos, sendo que, apesar de não ser um carro caro, as coisas essenciais eram sempre de série, tipo airbags, ABS e AC. De resto, tudo o que viesse era bom, mas não motivo de escolha.
Os km não eram muito importantes. Só liguei ao estado dos automóveis.
Juntando estas premissas andei eu pelos sites de classificados e fiz uma pré-selecção de meia-dúzia de negócios que me interessavam.
Isto já foi há vários meses, mas lembro-me que ficaram estas escolhas; Honda Civic Coupé 1.6 SR, de 1998, com 140000 km; Honda Civic 3 portas 1.4 90 cv, de 2003, com 80000 km; Ford Focus 1.6 100 cv 3P, de 2000, com 65000 km; Renault Clio 1.4 16V 98 cv, de 2001, 138000 km;
Começando pelo início, fiquei muito satisfeito com o estado do Civic Coupé, sendo que vinha com revisão feita e garantia de um ano. A única coisa a mudar seria quatro pneus e um novo rádio.
Conduzi o carro e gostei bastante do conjunto caixa/embraiagem, de fazer inveja a muitos carros actuais. A solidez estava também a um bom nível, tal como o motor.
O interior é sólido, mas tem um péssimo design e o equipamento é mesmo reduzido. Depois, tem alguns pormenores muito antiquados, como os comandos da ventilação, a chave, o tecido dos bancos, ou o volante.
Ainda assim, no geral, fiquei muito agradado com o carro. No entanto, acabei por exclui-lo porque o vendedor não quis mexer no preço e eu achei demasiado dinheiro por um carro com 12 anos, que não se destaca em nada e muito menos é especial. Ficou de fora, portanto.
No mesmo dia, vi o outro Civic. Por fora, estava bom. Por dentro, tinha alguns pormenores a corrigir e estava bastante sujo. O vendedor, um particular, era um tretas, daqueles que diz que ninguém trata o carro tão bem como ele.
Mal comecei a conduzir o carro, decidi logo que não o queria, já que o motor é uma nulidade completa. Fiquei a pensar se, ao invés de 90 cavalos, não teria 90 póneis. O conforto do carro é péssimo. É, claramente, um carro com um mau conjunto mola/amortecedor. É mole, mas, ainda assim, não consegue filtrar as irregularidades de forma competente.
O interior, apesar de melhor que o Civic dos parágrafos anteriores, também deixa algo desejar. Aliás, acho-o bem menos sólido que o outro. Apesar de ter poucos km, os plásticos apresentavam vários riscos.
Resumindo, um carro fraco que ficou logo descartado.
A seguir, fui ver o Focus, que seria o meu preferido. Três portas, azul, ainda com um design actual. A pintura precisava de um detalhe e dois pneus iam para o lixo. Por dentro, muito sujo, mas em estado bastante bom. Poucos km e tudo a funcionar. Parecia-me que tinha a escolha feita.
Engano meu, pois percebi que o vendedor não era de confiança. Não quis deixar experimentar o carro, nem alguns equipamentos, tipo o AC. Tive de desistir logo. Não lido com gente assim!
Por fim, vou ver o Clio. O vendedor pareceu-me logo bastante correcto e sincero e eu gostei logo do aspecto do carro. Três portas, vermelho fogo, nível Dynamique, os faróis de xénon a darem um aspecto diferente e tal.
A pintura tinha uns riscos, mas nada de anormal. Quatro pneus novos e um interior em estado muito acima da média.
Vou dar uma volta e percebo que o AC não está a fazer frio, mas que, de resto, tudo está bem. O vendedor diz que vai tentar resolver e que me liga no dia seguinte. Assim foi, mas a surpresa é que ele me liga a dizer que não descobre o problema e que baixa o preço.
Lá negociámos e trouxe o carro.
Baralhando e voltando a dar, acabei por comprar um Renault Clio 1.4 16V de 2001, com 138000 km.
Uma semana depois de o comprar, levei-o à oficina para a revisão e corrigir coisas que sabia não estar bem.
Além do óleo do motor e da caixa, levou todos os filtros e velas. Isto são as coisas normais de uma revisão.
Senti que a travagem não estava totalmente equilibrada, coisa que comprovei com uma máquina, e, como tal, pedi para trocarem as peças. O mecânico viu que uma das bombas traseiras estava rebentada e que os calços estavam nas lonas, tal como os discos da frente. À frente, levou discos Brembo e pastilhas Ferodo. Também óleo para os travões, obviamente.
Depois, sentia que o motor vibrava ligeiramente, o que se confirmou ao ver um apoio de motor danificado.
No total, paguei 550 euros. Basicamente, ao que o carro custou, tenho de adicionar esses 500 e tal euros.
Em relação a mais gastos, troquei as escovas, que estavam velhas, por umas Valeo Silence X-treme, que me custaram cerca de 40 euros.
Há pouco tempo, o alternador berrou e gastei 220 euros num recondicionado, mais 70 numa bateria. Foi a única avaria que tive, mas fiquei chateado na mesma.
O AC arranjou-se sozinho, mas já me falhou duas ou três vezes. O isqueiro não funcionava, mas era só um fusível queimado. Como o carro tem fusíveis suplentes, não gastei dinheiro nisso.
Há, trazia uma lâmpada de mínimos fundida, mas tinha uns led a mais e troquei as duas, para não ficar tão feio quando ligo os médios.
Como equipamento, o carro tem: ABS, 4 airbags, AC auto, computador de bordo, faróis de xénon, bancos desportivos e o resto que todos os carros têm.
Como referi, o exterior tem uns toques, mas nada de especial. O mais evidente é uma raspadela no friso do pára-choques da frente. As jantes é que têm vários riscos.
O interior só apresenta desgaste na pele do volante, algo comum nestes carros. Qualquer dia, perco o amor a 50 euros e mando estofar.
Falando do Clio, acho que é um carro que ainda mantém um design actual e jovem. Olho para o carro e não o sinto velho.
Ao volante, surge um dos seus principais defeitos: a posição de condução. Parece que estou na sanita e que o volante é a revista. Ainda por cima, é uma revista que não dá jeito a pegar. O que vale é que a sanita tem muito apoio e é confortável.
Lá dentro, encontra-se outro defeito, que é a falta de espaço traseiro, principalmente em altura. No entanto, como o carro é só para as minhas voltas, deixa de ser um defeito importante.
Ah, a qualidade do sistema de som também é muito baixa, mas não vou gastar dinheiro nisso, pois não justifica.
O motor é muito redondinho. O carro sai-se bem desde os baixos regimes, mas a sua melhor fase é nos regimes médio. Não é um motor sedento por rotação. É bem porreiro para andar no dia-a-dia.
Em Auto-estrada, mexe-se bem até. Pouco o usei nessas condições, mas já percebi que, em plano, a velocidade máxima é de 200 km/h, sendo que chega aos 210 km/h quando começamos a descer. É pouco importante.
Pena é que o motor faz algum barulho nestas condições, fruto de uma caixa de relações algo curtas.
Os consumos são uma agradável surpresa. Nas minhas voltas emprego-casa, ando sempre entre o 7 e os 7,5, sendo que é cidade e um pouco de IC, a ritmos normais. Andando depressa, anda nos 8 litros.
Quando tenho pachorra, como nas duas últimas semanas, ando pelos 6,2/6,3 litros. Acho bem bom.
O conforto é muito bom, como é apanágio da marca. Passa pelos buracos como se não fosse nada com ele.
Na condução citadina, não é o melhor dos automóveis. A direcção é pesada e o conjunto caixa/embraiagem é igual aos Renault dos anos 90, o que não é propriamente bom. Estes comandos exigem sempre força e são difíceis de dosear.
O comportamento é, para mim, o must deste carro. Apesar dos pneus Acelera serem muito fracos, o carro tem sempre muita frente e, mesmo quando esta se perde, é só levantar o pé e deixar a traseira rodar um bocado. O carro é muito ágil e divertido. Mais divertido que o Clio III, por exemplo. O melhor é que isto é tudo fácil de fazer.
Comprei-o com 138000 km e já passou os 144000. Posso dizer que estou bastante satisfeito, pois superou aquilo que esperava do carro.
Este enorme texto serve mais mostrar como se pode processar a compra de um carro e escrever tudo de forma clara e honesta.
Por fim, vamos às fotos, que é o que a malta curte.
Clio_AHO_frente_2.jpg
Clio_AHO_tra.jpg
Clio_AHO_int.jpg




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